Ciberguerra declarada
Espionagem, hackeamento global, controle e perseguições na
era Trump
O governo de Donald Trump decidiu incrementar a utilização da
Internet como dispositivo de espionagem maciça e de
perseguição aos actores, individuais ou colectivos, que
não são funcionais à sua sobrevivência como
superpotência. Os níveis de beligerância virtual e sua
calculada difusão pública denotam a perda de liderança
global e uma acção desesperada para não dissipar a
hegemonia primordial que se pretende perpetuar. Dentro dessa lógica deve
ser explicado o recrudescimento do ataque àqueles que difundem
documentos incómodos para o Departamento de Estado, como nos casos de
Julian Assange (fundador da WikiLeaks), Chelsea Manning e Edward Snowden
(acusados de fazer transpirar informação confidencial).
A manipulação eleitoral com que Trump chegou ao governo em 2016,
da qual a Cambridge Analytics fez parte, também se inscreve numa
lógica que articula o mundo público o privado e o militar com o
cultural.
Este é o quadro no qual se devem interpretar as recentes medidas
determinadas pelas agências federais de Washington, de considerarem o
conjunto da web como um dispositivo associado à lógica da
inteligência militar. A recente criação da
Cybersecurity and Infrastructure Security Agency
(CISA), em Novembro de 2018, sob a
dependência do Departamento de Segurança Nacional (DHS), implica
mais um passo nessa deriva. Uma das primeiras acções da CISA foi
a implementação, em conjunto com a Agência Nacional de
Inteligência Geoespacial (NGA), da sabotagem contra a infraestrutura
energética da Venezuela.
A operação sobre a rede eléctrica foi executada mediante a
combinação do vírus Duqu 2.0 (variante do Stuxnet,
utilizado em 2010 contra a central nuclear de Natanz, próxima de
Teerão) e a utilização de
Pulsos Electromagnéticos
(EMP). A referida ofensiva foi assumida tacitamente pelo próprio Trump a
assinar a Ordem Executiva, em 26/Março2019, na qual estabelece a
incorporação de aparelhos vinculados à
utilização de pulsos electromagnéticos (EMP), "como
um factor na planificação de cenários de defesa".
Nesse decreto, intitulado "Coordenação da resiliência
nacional aos pulsos electromagnéticos" encomenda-se às
agências federais que desenvolvam capacidades para evitar ataques e/ou
danificar "total ou parcialmente equipamentos eléctricos e
electrónicos dentro do seu raio de acção com
emissões de energia electromagnética de alta intensidade e
radiação".
As três espadas
A ofensiva, no seu conjunto, orienta-se para a manipulação da
rede a fim de privilegiar a circulação de
informação de corporações estado-unidenses,
relegando a reais ou potenciais competidores (basicamente chineses e europeus)
uma ínfima visibilização ou seu literal desaparecimento na
Internet. A contra-prestação exigida pela CISA às empresas
dos EUA (beneficiárias das práticas de segregação
monopolista) é a transferência e acesso à
informação disponível nos seus servidores, com o objectivo
de ampliar o material para o diagnóstico e análises do Big Data,
orientado para o (suposto) combate ao narcotráfico.
Os documentos oficiais do governo do Estados Unidos revelam uma decidida
ampliação nos níveis de beligerância digital. O
programa implementado nos últimos meses desde a criação em
15/Novembro/2018 da referida CISA. Seus objectivos estratégicos incluem:
a) A redefinição da web como um território de controle
geoglobal para contribuir para a análise e a observação do
resto dos países do mundo, dos seus circuitos de
comunicações soberanos (e portanto dos seus cidadãos). A
fundamentação desta meta parte do facto de que a Internet foi um
desenvolvimento dos Estados Unidos e, portanto, dispõe de prerrogativa
sobre a sua vigilância e intervenção.
b) A reconfiguração da sua teia e estrutura para permitir sua
utilização na perseguição de inimigos, opositores
ou actores disfuncionais quanto aos seus interesses económicos,
comerciais, energéticos e financeiros (tanto a nível
político como corporativo). Esta linha de trabalho inclui a
exclusão de sítios e portais e, de forma paralela, a
proscrição daqueles que são considerados críticos
para a sua segurança, incluídos os competidores empresariais. A
recente perseguição a uma integrante da direcção da
firma (fabricante de telemóveis) Huawei e o concomitante hackeamento dos
seus portais surge como um exemplo da ofensiva em toda linha.
c) O desenvolvimento de esquemas de ciberguerra contra Estados que questionem /
disputem a liderança dos EUA e/ou que se aconchegam em formas de
integração autónomas ao seu controle, e/ou que decidem
utilizar divisas de intercâmbio comercial alheias ao dólar.
Para avançar com a primeira linha de trabalho exigiu-se às
empresas que contam com maior volume de informação acumulada que
contribuam para o monitoramento global, permitindo a abertura dos seus
conglomerados de Big Data à CISA, subordinada do DHS. As últimas
medidas, decretadas por Donald Trump, incluem um conjunto de
acções destinadas a sistematizar informação para
elaborar diagnósticos prospectivos capazes de impedir derivas
antagónicas aos interesses económicos (e de supremacia cultural)
de Washington. As referidas acções encontram-se justificadas,
conforme os documentos divulgados pela CISA, dado o eterno perigo a que se
encontra exposta a segurança de Washington.
A medidas determinados em Fevereiro e Abril deste ano têm a
particularidade de exigir maiores níveis de articulação
com as empresas privadas ligadas à informação global.
Entre as corporações estabelecidas pela CISA para colaborar com a
tarefa constam as firmas que possuem o maior conglomerado de Big Data
residente, a nível mundial, em servidores habitualmente denominados como
clouds
(nuvens). Entre aquelas destinadas a contribuir para a segurança
estratégica dos Estados Unidos constam, entre outras, a
Accenture
(empresa de recrutamento de pessoal),
Cisco Systems
(redes),
Dell
(informática de consumo maciço), Intel (circuitos integrados),
Microsoft
(sistemas operativos),
Samsung
, (telemóveis e computadores). Os acordos governamentais e
negociações com a
Google
,
Facebook
,
Twitter
e outras redes sociales foram efectuados sob outro tipo de protocolos, diante
do pedido destas empresas que resistem em tornar pública sua
conivência com as agências de inteligência para não
exibir aos seus assinantes a vulnerabilidade dos seus dados privados.
Em resposta ao anunciado controle monopolista da web, a Rússia e a China
estão a desenvolver sistemas destinados a ampliar a sua autonomia em
relação aos servidores localizados em territórios
distantes e a configuração de redes soberanas. Em 16 de Abril
último o parlamento russo aprovou a criação de uma rede
interna (RuNet) em resposta às repetidas ameaças verbalizadas por
Trump acerca da propriedade estado-unidense da Internet e o seu
auto-atribuído direito ao uso discricionário da sua teia global.
A lei prevê a criação de uma infraestrutura própria,
a instalação de muralhas digitais capazes de filtrar ataques, a
possibilidade de inter-actuar com um ecosistema digital próprio (perante
potenciais interferências na comunicação soberana russa) e
os dispositivos capazes de evitar a hierarquização contaminada de
conteúdos decididos arbitrariamente por agências estrangeiras.
Por sua vez, a China vem desenvolvendo um esquema de protecção
semelhante ao russo, em meio à guerra comercial desencadeada por
Washington, motivada pela deterioração da sua competitividade
produtiva frente à emergência do sudeste asiático. No
centro desta disputa encontra-se a inteligência artificial, a
próxima irrupção das redes 5G (que permitirão a
generalização das impressoras de produtos) e a
ampliação do multilateralismo que a China impulsiona e gera.
Enquanto isso cá em casa
A convergência bélica implica a integração entre
conflitualidade material e virtual. O governo de Maurício Macri
[NR]
foi funcional aos interesses estratégicos dos Estados Unidos em todas
as áreas. A implementação de programas de soberania
digital, tanto em infraestrutura como em aplicações, foi
descontinuada e esvaziada. O governo do
Cambiemos
subordinou todas as suas iniciativas aos desígnios de agências
estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos e Israel, sócios
espalhafatosos se se considera que são dois dos países que
acompanham o Reino Unidos nas suas votações contra a Argentina em
relação à ocupação das ilhas Malvinas. Ambos
os Estados, além disso, fornecem aparelhos bélicos à
única base militar articulada com a NATO localizada em território
soberano.
Em 12/Setembro/2017 Maurício Macri assinou um acordo com Bibi Netanyahu
no qual se articulavam agência de inteligência e segurança
para cooperar na área do cibercrime. Tempos depois fez-se pública
a aquisição pelo Ministério da Defesa argentino de pacotes
de software para ciberdefesa (núcleos de CERT/CSIRT, para prevenir e
gerir incidentes de segurança cibernética), no âmbito de
uma contratação directa, sem licitação
prévia. Em Fevereiro de 2018 a ministra da Segurança, Patricia
Bullrich, formalizou um acordo com o Office of Intelligence and Analysis (I&A)
adstrito à National Security Agency (NSA) para avaliar em conjunto
informação vinculada ao terrorismo.
A soberania não parece ser um objectivo da lógica neoliberal
financista. Nem em territórios tangíveis nem naqueles que
constituem a teia digital. Uma vez que a marca cultural dos integrantes do
Cambiemos os faz sonhar / desejar serem estado-unidenses (brancos, civilizados
e libertos de genomas mestiços e crioulos), não estão
capacitados para sequer perceber a colonialidade das suas decisões ou
omissões. Desfrutam, risonhos e despreocupados, com a ideia de se
converterem nos seus vassalos digitais.
28/Abril/2019
[NR] Derrotado em Outubro/2019 ao tentar reeleger-se.
Ver também:
"Vigilância massiva, registo permanente", de Edward Snowden
O modelo "Ocean" e o fascismo Como funciona o novo método de fraudar eleições e manipular eleitores
The US Cyber and Electromagnetic War Against Venezuela
[*]
Sociólogo, doutorado em Ciências Económicas, analista
senior do Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE).
O original encontra-se em
estrategia.la/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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