Os aproveitadores da guerra e o fim do complexo militar-industrial dos EUA
por Dmitry Orlov
No interior da vasta burocracia do Pentágono existe um grupo encarregado
de monitorar o estado geral do complexo militar-industrial e a sua capacidade
contínua de cumprir os requisitos da estratégia de defesa
nacional. O gabinete para a aquisição e manutenção
e o gabinete para a política industrial gastam cerca de US$100 mil por
ano para produzir um Relatório Anual ao Congresso.
Ele está disponível para o público em geral
. Está disponível até para o público em geral e
especialistas russos divertiram-se muito a examiná-lo.
De facto, o relatório encheu-os de optimismo. Como se sabe, a
Rússia quer a paz mas os EUA parecem desejar a guerra e continuam a
fazer gestos ameaçadores contra uma longa lista de países que se
recusam a cumprir suas ordens ou simplesmente não compartilham seus
"valores universais". Mas agora verifica-se que aquelas
ameaças (e sanções económicas cada vez mais sem
garra) são quase tudo o que os EUA ainda são capazes de oferecer
isto apesar dos níveis absolutamente astronómicos dos
gastos com defesa. Vamos ver com o que parece o complexo militar-industrial dos
EUA através de lentes russas.
É importante observar que os autores do relatório não
pretendiam forçar legisladores a financiar algum projecto
específico. Isso o torna mais valioso do que inúmeras outras
fontes, cujo principal objectivo dos autores é encher a barriga com o
orçamento federal e que, portanto, tendem a ser ligeiros acerca de
factos e fortes em publicidade. Sem dúvida, a política ainda
desempenha um papel na forma como vários pormenores são
retratados, mas parece haver um limite para o número de problemas que
seus autores podem eliminar e ainda assim fazer um trabalho razoável de
análise da situação e de formulação de
recomendações.
O que provocou risos na análise russa foi o facto de que estes peritos
do INDPOL (que, como o resto do Departamento da Defesa dos EUA, adoram siglas)
avaliam o complexo militar-industrial dos EUA a partir de uma perspectiva com
base no mercado! Você vê, o complexo militar-industrial russo
é totalmente de propriedade do governo russo e trabalha exclusivamente
no seu interesse; qualquer coisa diferente seria considerada
traição. Mas o complexo militar-industrial dos EUA é
avaliado com base na sua
lucratividade! De acordo com o INDPOL, ele deve
não apenas produzir produtos para os militares mas também
adquirir fatia de mercado no comércio global de armas e, talvez mais
importante, maximizar a lucratividade para investidores privados. Por este
padrão, está a sair-se bem: em 2017, a margem bruta (EBITDA) para
os contratantes da defesa dos EUA variou de 15 a 17%, e alguns subcontratados
Transdigm, por exemplo conseguiram obter nada menos que 42-45%.
"Ah!", gritam os especialistas russos: "Encontrámos o
problema! Os americanos legalizaram o
lucro da guerra
!" (Isto, a propósito, é apenas um dos muitos exemplos de
algo chamado corrupção sistémica, a qual é
abundante nos EUA.)
Seria uma coisa se cada empreiteiro de defesa simplesmente cortasse a sua
talhada do topo, mas em vez disso há toda uma cadeia alimentar de
empreiteiros da defesa, a todo os quais é legalmente exigido, nada
menos, que maximizem os lucros dos seus accionistas. Mais de 28 mil empresas
estão envolvidas, mas os verdadeiros empreiteiros de primeira linha
junto aos quais o Pentágono coloca 2/3 de todos os contratos de defesa
são apenas os Seis Grandes: Lockheed Martin, Northrop Grumman, Raytheon,
General Dynamics, BAE Systems e Boeing. Todas as outras empresas estão
organizadas numa pirâmide de subcontratados com cinco níveis
hierárquicos, e em cada nível eles fazem o melhor que podem para
ordenhar o nível lhes está acima deles.
A insistência em métodos baseados no mercado e a exigência
de maximizar a lucratividade acabam por ser incompatíveis com os gastos
de defesa a um nível muito básico: os gastos com defesa
são intermitentes e cíclicos, com longos intervalos de ociosidade
entre as encomendas principais. Isto forçou até mesmo os seis
grandes a efectuarem cortes nos seus departamentos de defesa em favor da
expansão da produção civil. Além disso, apesar do
enorme tamanho do orçamento de defesa dos EUA, ele é de
dimensão finita (há apenas um planeta para explodir), assim como
o mercado global de armas. Uma vez que, numa economia de mercado, toda empresa
enfrenta a opção de crescer ou ser comprada, isto tem precipitado
grande número de fusões e aquisições, resultando
num mercado altamente consolidado com uns poucos actores importantes em cada
área.
Em consequência, na maior parte das áreas, das quais os autores do
relatório discutem 17, incluindo a Marinha, forças terrestres,
força aérea, electrónica, armas nucleares, tecnologia
espacial e assim por diante, pelo menos um terço do tempo o
Pentágono tem como escolha exactamente um empreiteiro para qualquer
contrato específico, o que faz com que a qualidade e a pontualidade
sofram, elevando preços.
Num certo número de casos, apesar de seu poder industrial e financeiro,
o Pentágono tem-se deparado com problemas insolúveis.
Especificamente, verificou-se que os EUA têm apenas um estaleiro naval
capaz de construir porta-aviões nucleares (por isso o USS Gerald Ford
não é exactamente um êxito). Este é o Northrop
Grumman Newport News Shipbuilding, em Newport, Virgínia. Em teoria, esta
empresa poderia trabalhar com três navios em simultâneo, mas dois
deles estão permanentemente ocupados por porta-aviões existentes
que exigem manutenção. Não se trata de um caso
único: o número de estaleiros capazes de construir submarinos
nucleares, destróieres e outros tipos de navios também é
exactamente de um. Portanto, no caso de um conflito prolongado com um
adversário sério no qual uma parcela significativa da Marinha dos
EUA tenha sido afundada, será impossível substituir os navios em
qualquer período de tempo razoável.
A situação é um pouco melhor quanto à
fabricação de aeronaves. As fábricas que existem podem
produzir 40 aviões por mês e poderiam chegar aos 130 por mês
se pressionadas. Por outro lado, a situação com tanques e
artilharia é absolutamente desanimadora. De acordo com este
relatório, os EUA perderam completamente a competência para
construir a nova geração de tanques. Não se trata mais da
perda da fábrica e do equipamento; nos EUA, uma segunda
geração de engenheiros que nunca projectou um tanque está
a aposentar-se. Seus substitutos não têm ninguém com quem
aprender e só sabem acerca de tanques modernos a partir de filmes e
videogames. No que diz respeito à artilharia, há apenas uma linha
de produção remanescente nos EUA que pode produzir canos
superiores a 40 mm; ela está totalmente lotada de serviço e seria
incapaz de aumentar a produção em caso de guerra. O empreiteiro
não está disposto a expandir a produção a menos que
o Pentágono garanta pelo menos 45% de utilização, uma vez
que isso não seria rentável.
A situação é semelhante para todas as áreas da
lista; ela é melhor para tecnologias de uso duplo que podem ser obtidas
junto a empresas civis e significativamente pior para empresas altamente
especializadas. O custo unitário de cada tipo de equipamento militar
aumenta ano após ano, enquanto os volumes sendo adquiridos tendem
continuamente a baixar por vezes até zero. Ao longo dos
últimos 15 anos, os EUA não adquiriram um único tanque
novo. Eles continuam a modernizar os antigos, mas a uma taxa que não vai
além de 100 por ano.
Devido a todas estas inclinações e tendências, a
indústria de defesa continua a perder não só pessoal
qualificado como também a capacidade de realizar o trabalho. Peritos do
INDPOL estimam que o défice em máquinas ferramenta atingiu os
27%. No último quarto de século os EUA cessaram de fabricar uma
grande variedade de equipamentos manufactureiros. Apenas metade destas
ferramentas pode ser importada de aliados ou nações amigas; para
o resto, há apenas uma fonte: a China. Eles analisaram as cadeias de
fornecimento de 600 dos mais importantes tipos de armas e descobriram que um
terço delas tem rupturas ao passo que outro terço arruinou-se
completamente. Na pirâmide subcontratada de cinco níveis do
Pentágono, os fabricantes de componentes são quase sempre
relegados ao nível mais baixo e os avisos que eles emitem quando cessam
a produção ou encerram completamente tendem a afogar-se no
pântano burocrático do Pentágono.
O resultado final de tudo isso é que teoricamente o Pentágono
ainda é capaz de efectuar pequenos ciclos de produção de
armas para compensar perdas contínuas em conflitos localizados de baixa
intensidade num período geral de paz, mas hoje mesmo isto está no
extremo final das suas capacidades. No caso de um conflito sério com
qualquer nação bem armada, tudo com que poderá contar
é o stock existente de munições e peças
sobressalentes, a quais serão rapidamente esgotadas.
Uma situação semelhante prevalece na área de elementos
extraídos de
terras raras
e outros materiais para a produção eletrónica. No
momento, o stock acumulado destes materiais necessários à
produção de mísseis e tecnologia espacial sobretudo
os satélites é suficiente para cinco anos à taxa de
utilização actual.
O relatório classifica especificamente como terrível
situação na área das armas nucleares estratégicas.
Quase toda a tecnologia para comunicações, direccionamento,
cálculos de trajectória e armamento das ogivas dos ICBM foi
desenvolvida nos anos 1960 e 70. Até os dias de hoje, os dados
são carregados a partir de disquetes floppy de 5 polegadas, as quais
eram produzidas em massa há 15 anos atrás. Não há
substitutos para elas e as pessoas que as conceberam estão mortas. A
opção está entre comprar pequenas quantidades de
produção de todos os consumíveis a um custo extravagante
ou desenvolver a partir do zero toda a tríade estratégica baseada
na terra, ao custo de três orçamentos anuais do Pentágono.
Existem muitos problemas específicos em cada área descrita no
relatório, mas a principal é a perda de competência entre a
equipe técnica e de engenharia causada por um baixo nível de
encomendas de substituição ou para o desenvolvimento de novos
produtos. A situação é tal que novos desenvolvimentos
teóricos promissores provenientes de centros de
investigação como o DARPA não podem ser realizados, dado o
actual conjunto de competências técnicas. Para uma série de
especializações chave, há menos de três
dúzias de especialistas treinados e experientes.
É expectável que esta situação continue a
deteriorar-se, com o número de pessoas empregadas no sector da defesa a
diminuir 11-16% ao longo da próxima década, devido principalmente
à escassez de jovens candidatos qualificados para substituir aqueles que
se reformam. Um exemplo específico: o trabalho de desenvolvimento do
F-35 está quase pronto e não haverá necessidade de
desenvolver um novo caça a jacto até 2035-2040. Nesse meio tempo,
o pessoal envolvido em seu desenvolvimento ficará ocioso e o seu
nível de competência deteriorar-se-á.
Embora no momento os EUA ainda liderem o mundo em gastos com defesa (US$610 mil
milhões dos US$1,7 milhão de milhões em 2017, que é
cerca de 36% de todos os gastos militares no planeta), a economia dos EUA
já não é capaz de suportar toda a pirâmide
tecnológica mesmo num tempo de relativa paz e prosperidade. No papel, os
EUA ainda parecem como um líder em tecnologia militar, mas os
fundamentos da sua supremacia militar foram corroídos. Os resultados
disso são claramente visíveis:
-
Os EUA ameaçaram a Coreia do Norte com acções
militares, mas foram forçados a recuar porque não têm
capacidade para travar uma guerra contra ela.
-
Os EUA ameaçaram o Irão com acções
militares, mas foram forçados a recuar porque não têm
capacidade de travar uma guerra contra ele.
-
Os EUA perderam a guerra no Afeganistão para o Taliban e quando o
mais longo conflito militar na história dos EUA finalmente estiver
acabado a situação política ali voltará ao
status quo ante
com o Taliban no comando e campos de treino terrorista islâmico em
operação.
-
Mandatários dos EUA (sobretudo a Arábia Saudita) que
combatem no Iémen provocaram um desastre humanitário, mas
têm sido incapazes de prevalecer militarmente.
-
As acções dos EUA na Síria levaram a uma
consolidação do poder e do território pelo governo
sírio e à posição regional agora dominante da
Rússia, Irão e Turquia.
-
A segunda maior potência da NATO, a Turquia, comprou os sistemas
de defesa aérea S-400 da Rússia. A alternativa dos EUA é o
sistema Patriot, o qual é duas vezes mais caro e realmente não
funciona.
Todos estes pontos apontam para o facto de que os EUA já não
são mais uma potência militar de todo. Isto é uma boa
notícia pelo menos pelas quatro seguintes razões.
Primeiro, os EUA são de longe o país mais beligerante da Terra,
tendo invadido grande número de países e continuado a ocupar
muitos deles. O facto de não poderem mais combater significa que
oportunidades para a paz devem aumentar.
Segundo, uma vez entendida a notícia de que o Pentágono é
nada mais do que um autoclismo para fundos públicos, seu financiamento
será cortado e a população dos EUA poderá ver o
dinheiro que actualmente está a engordar os aproveitadores de guerra a
ser gasto em estradas e pontes, embora pareça muito mais provável
que todo ele irá servir para pagar a despesa de juros da dívida
federal (enquanto durarem os stocks de materiais).
Terceiro, os políticos dos EUA perderão a capacidade de manter a
população em estado de ansiedade permanente em
relação à "segurança nacional". Na
verdade, os EUA têm "segurança natural" dois
oceanos e não precisam de todo de muita defesa nacional (desde
que se mantenham a si próprios e não tentem criar problemas aos
outros). Os canadianos não vão invadi-lo e, embora a fronteira do
sul precise de alguma guarda, isso pode ser cumprido ao nível
estadual/municipal por alguns bons rapazes usando armas e munição
de que já dispõem. Uma vez que esta "defesa nacional"
macaca de US$1,7 milhão de milhões esteja fora das suas costas,
cidadãos americanos comuns poderão trabalhar menos, brincar mais
e sentirem-se menos agressivos, ansiosos, deprimidos e paranóicos.
Por último mas não menos importante, será delicioso ver os
aproveitadores da guerra reduzidos a rasparem sob as almofadas do sofá
para conseguirem uns trocados. Tudo o que os militares dos EUA têm sido
capazes produzir durante longo tempo até agora é miséria,
cujo termo técnico é "desastre humanitário".
Olhe-se para as consequências do envolvimento militar dos EUA na
Sérvia/Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e
Iémen e o que se vê? Só se vê miséria
tanto para os habitantes locais quanto para os cidadãos americanos que
perderam membros da sua família, tiveram suas pernas amputadas ou agora
sofrem de PTSD ou lesão cerebral. Seria justo se essa desgraça
voltasse àqueles que lucraram com isso.
16/Julho/2019
Ver também:
A supremacia militar perdida dos EUA
A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (I)
A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (II)
O original encontra-se em
cluborlov.blogspot.com/2019/07/war-profiteers-and-demise-of-us.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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