Os media que se proclamam "de referência" não falam disto
Faluja: Anatomia de uma atrocidade
Hoje, 6 de julho de 2010, Chris Busby, Malak Hamdan e
Entesar Ariabi publicaram seu estudo epidemiológico sobre os problemas
de saúde sofridos pelo povo de Faluja. O estudo completo pode ser
descarregado
aqui
, gratuitamente. Vocês podem ainda não ter ouvido falar desses
homens, mas estou certo que seus nomes serão citados nos livros de
história. A razão para isso é que coletaram
evidências cientificas do genocídio que a população
de Faluja está sofrendo nas mãos dos imperialistas que invadiram
o Iraque. Infelizmente, ainda não despertaram muita
atenção pelas suas descobertas, e por isso sinto-me pessoalmente
obrigado a ajudar com isso.
Poucos dias atrás, em 2 de julho, aqueles cientistas emitiram um
comunicado de imprensa no Uruknet
apresentando algumas das suas descobertas. Foi intitulado
"Danos genético e de saúde em Faluja, Iraque, piores do que
em Hiroshima". Em abril, anunciaram descobertas preliminares no
Global Research
, um site com o qual creio que a maioria de vocês está
familiarizado. Por favor, entendam que quando alguém descobre horrendas
atrocidades, nas quais a mídia principal se recusa a tocar, eles
vêem a vocês, o movimento da Verdade, e vocês são
responsáveis por divulgar essa informação junto ao
público. Antes de 2003, antes da invasão e da guerra do Iraque,
da carnificina de Faluja e muitas mais, vocês estavam tentando despertar
consciências para a Síndrome da Guerra do Golfo, a epidemia de
câncer e defeitos congênitos no sul do Iraque devido ao
urânio empobrecido
(Depleted Uranium)
, e geralmente deparavam-se com o ridiculo e a descrença.
Agora que os horrores sobre os quais vocês avisaram estão sendo
lentamente revelados ao mundo, todos vocês têm razões para
se orgulhar de seu árduo trabalho. Não apenas os ativistas
principais (Leuren Moret, Doug Rokke, e muitos outros) mas todos vocês
que contribuíram de sua própria maneira reproduzindo suas
histórias em blogues, fóruns, escrevendo a políticos, e
tudo o mais que fizeram para alertar sobre esta atrocidade. Se o povo os
ouvisse, muito disso poderia ter sido evitado. Acho importante que compreendam
que devem sentir orgulho de si mesmos pelo esforço que fizeram, enquanto
a maior parte das pessoas em torno de vocês nada fizeram.
Tenho também muito respeito pela equipe de 11 pessoas que foram de casa
em casa em Faluja para coletar informações. As pessoas em Faluja
desconfiam das autoridades (têm todas as razões para isso), e
suspeitaram que era parte de uma operação do serviço
secreto. Em um caso foram infelizmente recebidos com violência
física. A equipe mesmo assim completou a pesquisa, apesar do risco que
enfrentaram tanto da ameaça de violência física quanto
naturalmente por simplesmente estar num ambiente insalubre.
Dito isso, passo ao estudo propriamente dito. Por mais chocantes que tenham
sido as informações anunciadas à imprensa e as descobertas
preliminares, os resultados completos do que eles mostraram no seu estudo
é pior. O comunicado à imprensa menciona: "descobriu-se que
a mortalidade infantil era de 80 por 1000 nascimentos, que se compara a 19 no
Egito, 17 na Jordânia e 9,7 no Kuwait". O que o comunicado de
imprensa não mencionou é que este é o período de
total de 2006 a 2010. Infelizmente, entre 2006 e 2010 a mortalidade infantil
manteve-se a
subir (136 no período 2009-2010).
Como o estudo completo menciona, ao olharmos apenas para 2009 e os primeiros
dois meses de 2010, descobrimos que a taxa de mortalidade infantil hoje
não está no nível de 80 crianças entre mil, que
morrem em um ano, mas numa taxa horrorosa de 136 a cada 1000 nascimentos.
Quando olhamos a tabela no estudo, descobrimos que em 2008 morreram 6
crianças (de 0 a 1 anos), comparadas a 0 em 2005 e somente 1 em 2004. Em
2009, 10 crianças morreram. Entretanto, nos primeiros dois meses de 2010
que os cientistas estudaram, descobriram que 6 crianças haviam morrido.
Portanto, só nos primeiros dois meses de 2010 morreram tantas
crianças quanto
em todo o ano de 2008.
Se a taxa para 2010 se mantiver (e isso não é garantido,
poderia ser mais baixa, mas devido à tendência de
elevação é mais provável que aumente ainda mais),
em 2010 36 crianças morrerão, em comparação com
apenas um em 2004.
Ainda que já devesse saber, esperava que a situação
melhorasse em Faluja, ou pelo menos não piorasse, porque não vi
muitas notícias recentemente, mas ao invés disso a
situação só piora à medida em que falamos. Uma
descoberta posterior feita pelos cientistas foi que na categoria de
crianças entre 0 e 4 anos há somente 860 meninos para cada 1000
meninas. A proporção normal é de 1050 meninos para cada
1000 meninas. Isto é evidência de mutações
genéticas.
A razão para isso é que meninas têm dois cromossomas X,
enquanto os meninos têm apenas um. Assim, se um dos cromossomos X de uma
menina sofre mutação genética, ela ainda tem outra
cópia funcional. Entretanto, se o cromossoma X de um menino sofre
mutação genética, ele não tem cópia
funcional do mesmo gene, e isso pode causar a morte do menino. Todavia, a taxa
de nascimentos distorcida por também ser (parcialmente ) causada por
outro efeito que os cientistas não mencionaram em seu estudo: o efeito
de paralisação endócrina do urânio.
Aos níveis
baixos
dos padrões do EPA (Environmental Protection
Agency, Agência de Proteção Ambiental),
o urânio é um potente interruptor endócrino
. Interruptores endócrinos são agentes químicos que
têm efeito hormonal em seres humanos, e o urânio funciona como um
estrogênio (hormônio feminino) no corpo humano.
Isso faz com que nasça um número menor de bebês do sexo masculino
. Assim, a taxa de nascimentos distorcida poderia
ser também resultante do efeito hormonal do urânio empobrecido,
além de ter sido causada por um aumento das mutações
genéticas.
Ainda outro fato descoberto pelos pesquisadores deve ser mencionado. Seu estudo
descobriu que houve um declínio abrupto nas taxas de nascimento. Como
eles mencionam: "É claro que a população de 0 a 4
anos, nascida no período 2004 a 2008, após a guerra, é
significativamente 30% menor que nas populações nas faixas de
5-9, 10-14 e 15-19 anos". Isso é o que eu chamo de despovoamento em
ação.
Infelizmente também há uma epidemia de câncer em Faluja.
Isso era esperado, mas não recebeu até agora
atenção suficiente. Há 4,2 mais vezes casos de
câncer do que se esperaria para a região. Para o câncer
infantil, há um risco relativo de 12,6 vezes. Câncer cerebral,
câncer mamário e linfoma são todos particularmente mais
altos do que se esperaria, mas o pior de tudo é a epidemia de leucemia,
num risco relativo de 22,2 vezes, e de 38,5 na categoria etária entre 0
e 25 anos. Esses são exatamente os tipos de câncer que
esperaríamos como causa de exposição à
radiação.
Veteranos expostos ao urânio empobrecido
também sofrem de epidemias de leucemia, por exemplo. Crianças
são mais sensíveis aos efeitos da radiação devido a
suas células estarem em rápida divisão.
Todas as evidências mostram que o desastre é causado pelo
urânio empobrecido. Não se pode detê-lo, e ele apenas piora,
e continuará a piorar. Estamos agora em 2010, e o combate mais intenso
ocorreu em 2004. Em Bassorá, o combate intenso ocorreu em 1991. Em 1998,
o aumento nos defeitos congênitos tornou-se seriamente notável, e
em 2001, dez anos depois, tinha-se tornado alarmante. Em 2005,
a taxa de câncer estava ainda em elevação em Bassorá
. Desta forma há pouca razão para acreditar que a
situação melhorará num futuro próximo, infelizmente.
Eu não desejaria isso ao meu pior inimigo. Então certamente
não o desejo para o grande povo do Iraque, que conseguiu construir um
país do primeiro mundo no deserto, onde pessoas de crenças
diferentes se casavam entre si, e muçulmanos e cristãos geriam
juntos o governo secular. Mulheres frequentavam as universidades e não
precisavam esconder sua beleza. Hoje elas cobrem seus corpos para esconder as
feridas do câncer e de defeitos congênitos que ainda serão a
praga do Iraque nas próximas décadas. Durante os próximos
50 anos, aqueles que tiverem câncer ainda se perguntarão se o
urânio empobrecido teria sido o responsável. Eles sofrem da mesma
forma que eu e você se isso nos tivesse acontecido. Portanto, não
vejo os sobreviventes deste genocídio nos perdoando tão cedo.
Não acho que perdoaríamos e quereríamos a amizade de povos
que mandaram seus soldados invadir nossos países, destruíram
nosso DNA com suas armas radioativas, e não mostraram um grama de
arrependimento ou culpa. Quando víssemos o que fizeram às nossas
crianças, que nasceram deformadas e tiveram câncer,
lutaríamos com os invasores até que estivessem todos mortos, ou
tivessem todos deixado o nosso país. Não interpretem isso como um
chamado à violência, estou apenas afirmando o óbvio: se
você fere os filhos de alguém, eles lutarão contra si
até a morte, sem um momento sequer de dúvida. Quando você
chora os 4.400 veteranos americanos mortos, ou as centenas de outros
países, pense nisso. Eles não podem apontar para seus
comandantes, eles têm sua própria responsabilidade em não
causar dano a outros, e eles falharam em viver de acordo com isso. A qualquer
momento, diga a algum militar que você conhece para desertar quando ele
tiver oportunidade. Nunca é tarde demais para abandonar o mal.
E esse mal infelizmente está solto por aí. Quando Israel
bombardeou Gaza, chamaram a isso "Operação Chumbo
Derretido", uma descrição poética do urânio
empobrecido (o urânio é geralmente descrito como mais denso que o
chumbo, e é supostamente por isso que é usado). Quando os
americanos tomaram Faluja, denominaram a sua carnificina de
Operação Fúria Fantasma. Eu novamente chamaria isso de
descrição poética do que fizeram ao povo de Faluja. Os
militares americanos estavam furiosos com a morte de quatro dos seus guerreiros
de elite, os contratados da Blackwater cujos corpos foram pendurados numa
ponte. Assim, desencadearam sua "fúria fantasma". A
radiação invisível que os sentidos humanos não
podem detectar, que destrói toda vida em que toca. Se o envenenamento de
uma cidade inteira com radiação não é uma forma de
"Fúria Fantasma", então eu não sei o que
é.
Qualquer possibilidade de reconciliação não é
favorecida pela reação que eu vejo das pessoas na Internet a
essas histórias. "Uau, tudo isso por terem pendurado os corpos
queimados de contratados americanos nas pontes e os terem profanado. Não
sinto muito por eles". Foi o que uma pessoa respondeu. Quando foram
reveladas as notícias sobre uma epidemia de câncer no sangue na
Faixa de Gaza durante a Operação Chumbo Derretido, alguém
respondeu com: "Com um pouco de sorte eles param de se reproduzir na
faixa". O Dr. Daud Miraki postou algumas imagens de crianças
nascidas no Afeganistão e escreveu em um email para Jeff Rense sobre a
resposta que conseguiu: "Nos últimos dias, vivi no inferno
recebendo emails podres e cheios de ódio de algumas pessoas doentes e
estúpidas na América. Elas caçoam das crianças... e
amaldiçoam o Islão, a mim e à minha família."
Não sei que tipo de indivíduo doente diria coisas assim. Parecem
ser predominantemente aqueles no meio do espectro político, as pessoas
que acreditam que os Democratas e Republicanos lhes dão uma escolha, e
que acreditam no que vêem na TV.
Comunistas, anarquistas, nacionalistas brancos, nacionalistas negros,
islamitas, todos estão chocados com o uso de urânio empobrecido e
se opõem a isso. Essas são as pessoas a quem a imprensa chama de
extremistas, porque não se enquadram na oposição
controlada, e de quem somos ensinados a ter medo. Ao contrário, as
pessoas que encontro que ignoram ou, pior ainda, encorajam esse
genocídio são aquelas da corrente política
majoritária. Se existe alguém que eu tema, são aqueles na
corrente política majoritária, composta de pessoas assustadas
demais para pensar por si mesmas e que acham que nada lhes acontecerá se
aplaudirem os que estão no poder. São tais pessoas que tornam
possível este genocídio.
Ver também:
Urânio empobrecido: Bombas sujas, mísseis sujos e balas sujas
, Leuren Moret
Guerra do Iraque: Urânio empobrecido contamina a Europa
, Leuren Moret
Urânio empobrecido, arma de extermínio da humanidade
, Leuren Moret
As armas utilizadas e os alvos atingidos pelos bombardeamentos israelenses
, Leuren Moret
Urânio empobrecido: Um crime de guerra dentro de uma guerra criminosa
, William Bowles
Afeganistão: O pesadelo nuclear principia
, Davey Garland
Uma questão de integridade
, Doug Rokke, Ph.D.
Os bárbaros e os civilizados
, Chandra Muzaffar
O urânio empobrecido retorna aos EUA
, Eli
Forças israelenses utilizam armas mortais novas e desconhecidas
, Prof. Paola Manduca
Gaza, campo de extermínio lento
, Thabet El Masri
DU, o horror que o imperialismo espalha por todo o planeta
, David Randall
O urânio e a guerra
, John Williams
Queixa-crime contra o general Franks
, Jan Fermon e Nuri Albala
A ciência ao serviço da guerra?
, Rui Namorado Rosa
"Sangue nas suas mãos"
, John Pilger
[*]
David.Rothscum@dse.nl
O original encontra-se em
http://davidrothscum.blogspot.com/2010/07/Faluja-anatomy-of-atrocity.html
e em
http://www.countercurrents.org/rothscum110710.htm
. Tradução de RMP.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|